UMA NO CRAVO OUTRA NA FERRADURA
Domingo, 13 de Janeiro de 2013
O cão que matou a criança e as comparações grotescas

Mandam as regras que um animal doméstico que se demonstre  perigoso ao ponto de pôr em risco a vida humana tem de ser abatido. Um cão de  uma raça perigosa matou uma criança de 18 meses. Foi decidido o seu  abate. mais de 20 mil pessoas assinaram uma petição para impedir uma  decisão de evidente bom senso. Segundo fonte do Instituto de Medicina Legal  ao jornal "Público", "a autópsia, realizada quarta-feira, concluiu que a morte  se deveu a ferimentos provocados pela mordedura do cão".

Dizem os subscritores desta petição: "um cão que nunca fez  mal durante oito anos e atacou é porque teve algum motivo". A ver se nos  entendemos: Os motivos para um animal matar uma criança são irrelevantes, porque  as crianças não podem correr risco de vida, sejam lá qual forem os motivos. A  decisão de abater um cão não é uma forma de fazer justiça (por isso os motivos  pouco interessam), mas de segurança. Escrever que "a criança e o cão são os  dois inocentes desta história" é pornográfico. Crianças e cães, para os  humanos, não estão no mesmo nível. Nenhum animal é abatido por ser "culpado"  de nada. Até porque tal conceito é inaplicável a não humanos. Um animal  doméstico, se se revelar perigoso para os humanos, não pode conviver com eles. É  apenas disto que se trata e não de qualquer ato de justiça. Os donos e pais  foram negligentes? Isso sim, resolve-se na justiça. O abate do cão é outra  coisa: um cão que mata uma criança com quem convive deixou de ser um animal  doméstico. Porque o que o torna doméstico é ser controlável por humanos. Como  não pode ser devolvido à vida selvagem é abatido. Não por justiça, mas por  segurança.

Diz a petição: "Se não se abatem pessoas por cometerem  erros, por roubarem, por matarem...então também não o façam com os animais!"  A comparação é de tal forma grotesca que chega a ser desumana. Eu sou contra a  pena de morte. Eu como carne de animais que foram abatidos. Serei incoerente ou  limito-me a não comparar o incomparável? Os animais não têm, para os humanos, o  mesmo estatuto das pessoas. E quem acha que têm não percebe porque consideramos a vida humana um valor absoluto e indiscutível.

Resumo assim: a vida do humano mais asqueroso vale mais do  que a vida do animal doméstico de que mais gostamos. Sempre. Tendo tido (e  continuando a ter) quase sempre animais domésticos (de que gosto imenso),  parece-me haver em muitos defensores mais radicais dos direitos dos animais um  discurso que relativiza os direitos humanos. Porque não compreendem a sua  absoluta excepcionalidade.

Ler mais: http://expresso.sapo.pt/o-cao-que-matou-a-crianca-e-as-comparacoes-grotescas=f778636#ixzz2HoVyjtwX



publicado por José Rocha às 01:13
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1 comentário:
De Luis Dores a 26 de Janeiro de 2013 às 15:46
Isto é das coisas mais discutíveis que pode existir. Há 1001 pontas por onde se pode pegar neste assunto.
Em relação ao estatuto humano vs animal, há pessoas que se esquecem duma coisa: Humano é um animal...nos vários sentidos que esta frase implica.
"a vida do humano mais asqueroso vale mais do que a vida do animal doméstico de que mais gostamos"...por lei isso é assim. Mas isso é a lei, que é cega e feita de uma forma geral. As coisas têm o valor que lhe atribuímos e isso varia de pessoa para pessoa.


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