UMA NO CRAVO OUTRA NA FERRADURA
Domingo, 31 de Julho de 2011
Aguiar, dezoito de Junho de mil settecentos e sincoenta e outto.

Aguiar, 1758, Junho, 01.
Memória Paroquial da freguesia de Aguiar, comarca de Évora
(ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 1, nº 58, pp. 405 a 410)


/p. 405/
Excelentissimo e Reverendissimo Senhor.
Quis logo cumprir com as hordens de Vossa Excelencia Reverendissima, porem
como satisfaze-las effectivamente concistia em a mais perfeita indagaçam, o tempo que
appliquei em inquirir as noticias foi o que dilatou a brevidade das respostas. O que
posso relatar hé o seguinte signalados somente os numeros do que sobre cada hum dos
interrogatorios pude alcançar e que pude referir.
Ao primeiro numero do primeiro interrogatorio e aos mais respondo:


1º Esta villa se denomina Aguiar, está na provincia de Alentejo ou Transtagana,
cuja denominaçam se lhe deve por ficar a cá do rio Tejo, a respeito de Lisboa. Hé do
arcebispado de Evora da mesma provedoria e comarca.
2º Hé della senhor donatario, o Excelentissimo Conde Baram de Alvito que ao
prezente vive. Foi-lhe dado o foral pello gloriozo Rey o Senhor Dom Deniz,
confirmando-o depois o Senhor Rey Dom Manoel, em a cidade de Lisboa, a vinte de
Novembro de mil quinhentos e dezaseis.
3º Consta de noventa e hum vezinhos, e seus montes de trinta e quatro; e o
numero das pessoas mayores, quatrocentas e vinte sette; e de menores trinta e outto.
4º Está fundada em huma vistoza e aplazivel planicie, e com estrada tam direita
e plana para a ditta cidade de Evora, que como em igual equilibrio e paralelo se avistam
huma da outra. Sua distancia hé tam somente a de quatro legoas. Tambem da mesma se
avista a notavel villa de Viana, distante huma só legoa, e o lugar de São Bartholomeu do
Outeiro com a mesma distancia. Hé de continua pasagem com bastante comodidade e
provimento que tem de três estalagens muy suficientes /p. 406/ em que se acha sufrivel
agazalho e prompta providencia de pão, carne, peixe e mais generos necessarios ao
sustento da vida.
5º Tem termo seu, porem não consta de lugares ou aldeyas, sim dos montes
seguintes: Entre-as-Agoas-de-Baixo, as Agoas-de-Sima, Outeiro, Zambugeiro, Landim,
Cabeça de Aguiar, Amoreira, Engerinha, Carvalhoza, Teixeira, Val do Mouro, Broas,
Monte Velho, Cazas.
6º A parrochia está unida e conjunta à mesma villa. A freguezia não consta,
como já está ditto, de lugares ou aldeyas, só sim dos montes já expreçados no
interrogatorio antecedente, como tambem dos seguintes: Falcoeira, Cameira, Ovelheira,
Fornalha, Ganhoteira, Aceiceirinha, Casqueira, Sobral, Barrocal, Barrocalinho,
Sobreirinha, Chiminé, Possinho, Aniello Saluada. Porem todos estes sam do termo de
Evora.
7º O orago hé de Nossa Senhora de Assumpçam. Tem três altares: o mor da
mesma Senhora; o segundo do Rozario; o terceiro das Bemditas Almas. A igreja não hé
de naves, sim de tella vam, mas forrada. Tem quatro irmandades, a saber: Sanctissimo,
Rozario, Almas e a do Senhor Jezus das Chagas.
8º O parrocho hé prior, cuja aprezentaçam pertence à Caza dos Excelentissimos
Condes de Ericeira, e pella conjugaçam ou sobreveniencia do titulo aos dittos senhores a
apprezenta hoje o Excelentissimo Marquez do Louriçal, Conde de Ericeira. Rende
quatrocentos mil réis.
9º Nam tem beneficiados.
10º Nam tem conventos de religiozos ou religiozas.
11º Nam há hospital.
12º Tambem nam há caza de Mizericordia
13º Tem dentro da mesma villa a irmandade do Senhor Jezus das Chagas, e fora
della a do Apostolo Senhor Sam Barnabe. Ambas subfraganias à mesma igreja.
/p. 407/
14º Acodem a estas alguns devotos em dias determinados.
15º Os frutos que recolhem hé trigo, sevada e em maior abundancia, senteyo.
16º Tem dois juizes ordinarios, camera, impostos pello Excelentissimo Conde
Baram de Alvito, e sujeitos à ovedoria da mesma villa do Alvito.
17º Hé donataria como fica expedido em numero segundo, e se em seu principio
foi couto, cabeça de concelho, honra ou behetria (e por isso sollar entam izempto da
jurisdiçam real) o não pude saber.
18º Sahio desta mesma villa o padre Joam Luis para arcebispo da Cangranor; e
não me consta que saicem outro algum homem insigne por virtudes, letras ou armas.
19º Nam tem feira.
20º Tambem nam há correo; e se serve do da villa de Viana, distante desta huma
legoa.
21º Dista da cidade de Evora, sua capital, quatro legoas; e de Lisboa, capital do
Reyno, dezasette.
22º Goza esta villa, sendo donataria, do privilegio de nam pagar jugadas; mas
nam pude discubrir mais antiguidades que as que já tenho referido, como tambem
couzas mais dignas de memoria.
23º Nesta mesma villa ou perto della não consta haver fonte, ou lagoa celebre
nem há agoas com alguma especial qualidade.
24º Nam tem porto de mar.
25º Tambem nam hé murada, nem praça de armas; e no seu destricto há hũa
torre que nam padeceo ruina com o terremoto. Está assaz furtificada e hé do
Excelentissimo Marquez de Engeja.
26º Algumas cazas padeceram em suas paredes humas, quaze impreceptiveis,
fendas no terremoto de mil settecentos sincoenta, porem já se acham reparadas.
27º O que acho mais digno de memoria hé ser coutada e da mesma ser couteiromor
o Excelentissimo Conde Baram; e sem embargo de ser /p. 408/ coutada, nam há em
abundancia todo o genero de caça; e athe aqui nam acho mais couza digna de memoria
que relatar possa.


[Serra]
1º Nesta villa tambem nam há serra motivo porque deixo de responder aos
interrogatorios pertencentes a tal.


[Rio]
1º Nam há rio; sim duas ribeiras; huma dellas chamada a Murteira que tem seu
nascimento na serra do Alpedreira, distante desta villa huma legoa.
2º Nam nasce caudeloza e só corre de Inverno.
3º Entra na mesma ribeira expreçada a chamada Charrama em o citio chamado o
Pego do Mouro; e tem seu nascimento nas fazendas de Evora no citio do Val Covo.
4º Hé negavel e incapaz de imbarcaçois.
5º Ainda de Inverno hé de curso quieto em toda sua distancia.
6º Corre do Norte a Puente.
7º Os peixes que cria sam pardelhas, burdalos, picois, e destes se tiram muitos
que chegam a pezar três arrates.
8º Há pescaria na mesma à cana e com rede, porem só de Inverno.
9º As pescarias sam livres em toda a distancia da ribeira.
10º Suas margens se cultivam, e nam tem arvoredo de fruto ou sylvestre.
11º Tambem nam têm virtude alguma suas agoas.
12º Conserva athe agora o mesmo nome e nam consta o tenha diferente /p. 409/
em algumas partes; e tambem nam há memoria de que em outro tempo deixace de
concervar sempre o mesmo.
13º Morre em o rio chamado Sado, e o citio em que nelle entra o não pude
descubrir.
14º Hé negavel como está ditto em o numero quarto, e só tem assudes a ribeira
chamada Murteira por ter quatro moinhos que só de Inverno moiem.
15º Nam tem pontes de cantaria, nem de pau em sitio algum.
16º Nam tem lagares de azeite, pizois, noras, nem outro algum engenho mas os
que tem sam entre os quatro moinhos como já fica expreçado no numero quatorze.
17º Nam consta que em tempo algum, athe ao prezente, se tirace ouro das suas
areas.
18º Os povos uzariam de suas agoas para a cultura dos campos por livres que
sam e de pençam alguma, se estas fossem continuadas.
19º A ribeira chamada Murteira tem legoa e meya athe se meter na chamada
Charrama; e esta athe intrar na ribeira de Sado; consta toda sua distancia de seis legoas;
e as povoaçois por donde paça constam-me tam somente, que hé quaze pello pé pella
unica da villa do Torram.
20º Há pellos montes já nomeados e suas herdades bastantes criaçois de todo o
genero de gados; e nam há outra couza mais notavel a que responda, ou dê noticia fora
dos interrogatorios.


Hé, Excelentissimo e Reverendissimo Senhor, nam obstante as minhas bem
patentes e notorias infirmidades, o que pude com indagaçam discubrir, sem que a mais
leve occiozidade minha foce cauzada pouca noticia das couzas, antes permita-me Vossa
/p. 410/ Excelencia Reverendissima asseverar-lhe que a gostoza promptidam e efficaz
diligencia de obedecer a preceito, se seguio à dispelecencia e pezar de achar aos homens
do prezente secullo tam incuriozos das nutabilidades da Patria, que com lastima admirei
o munto que as ignoram, ao mesmo tempo que deve ser a maior gloria dos nacionais
recordarem-se das maravilhas da terra em que nasceram, nam só pello estimavel louvor
de suas instrucçois, tambem pello especial contentamento das singularidades da Patria.
Vossa Excelencia Reverendissima perdoará tudo o que nam haja satisfeito ao seu
agrado e prostrado com aquela devida submissam aos seos pés imploro huma e
repetidas vezes a sua bençam, graça esta que espero dever à em patente benignidade que
para com todos os subditos uza Vossa Excelencia Reverendissima, que Deos guarde
muntos annos.


Aguiar, dezoito de Junho de mil settecentos e sincoenta e outto.

Beija as maos a Vossa Excelencia Reverendissima.
Cappellão este, o mais innutil e subditto seo e mais obediente.

as) Dom Antonio Henriques de Azevedo Mello e Castro

 


 

Transcrição: João Cosme e José Varandas

in COSME, João, VARANDAS, José (introdução, transcrição e revisão), Memórias Paroquiais (1758-1759), vol. I [Abação-Alcaria], Lisboa, Centro de História da Universidade de Lisboa e Caleidoscópio, 2010, pp. 293-298.

 

Etiquetas: Memória Completa Viana do Alentejo - Aguiar João Cosme José Varandas

Actualizado em Domingo, 01 Maio 2011 09:31

 

Retirado de AQUI

 



publicado por José Rocha às 16:48
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